Quando um sonho encontra outro
Tecnólogo em Radiologia, professor, palestrante e estudante de Medicina Veterinária, Paulo Simon inaugura o Além da Radiologia contando como transformou uma oportunidade inesperada em profissão e, depois, em ponte para realizar um sonho antigo.
Paulo Simon inaugura a série Além da Radiologia, do Portal da Radiologia.
Paulo entrou no curso técnico sem saber exatamente o que fazia um profissional da área. Enfrentou dificuldades para conseguir a primeira oportunidade, atuou como voluntário, construiu carreira na Tomografia Computadorizada, tornou-se professor e hoje pretende unir Radiologia e Medicina Veterinária no diagnóstico por imagem animal.
Hoje vejo que não foi uma mudança de caminho, mas sim uma continuação da minha trajetória. Paulo Simon
Quem é Paulo Simon?
Formação e experiência
Técnico e Tecnólogo em Radiologia, com atuação em Radiografia convencional e digital, Arco Cirúrgico e Tomografia Computadorizada.
Professor e palestrante
Já atuou em cursos presenciais e on-line e participou de palestras, eventos, workshops e congressos.
Novo capítulo
É estudante de Medicina Veterinária e pretende integrar a nova formação à experiência construída no diagnóstico por imagem.
Projeto profissional
Tem como meta desenvolver um serviço próprio de diagnóstico por imagem veterinário.
Conhecendo sua trajetória na Radiologia
Portal da Radiologia: Para começarmos, quem é Paulo Simon?
Paulo Simon: Um sonhador, mas muito realizado por tudo o que já vivi. Sou alguém que acredita nas mudanças e aprendeu a se adaptar aos desafios que a vida coloca no caminho. Não gosto de esperar as oportunidades acontecerem; prefiro ir atrás delas e fazer as coisas acontecerem.
E tento levar um princípio comigo em tudo o que faço: se eu não puder ajudar alguém, pelo menos não vou atrapalhar.
Como a Radiologia entrou na sua vida?
Paulo Simon: Minha história na Radiologia não começou comigo, e sim com a minha mãe. Ela é da área da saúde desde 1993 e, durante toda a carreira, sempre trabalhou ao lado de Técnicos em Radiologia. Ela dizia que eu tinha o perfil para a profissão, mas, para falar a verdade, eu nunca tinha me imaginado trabalhando nessa área.
Em 2017, eu tinha 18 anos, trabalhava como estoquista e estava naquela fase em que a gente ainda não sabe muito bem o que quer da vida. Foi quando minha mãe me sugeriu fazer o curso de Técnico em Radiologia enquanto eu decidia qual caminho seguir.
Aceitei a ideia sem saber direito do que se tratava. Nem quanto tempo durava o curso eu sabia. Se você me perguntasse naquele primeiro dia o que um Técnico em Radiologia realmente fazia, eu provavelmente também não saberia responder.
Conforme as aulas foram passando, fui entendendo a importância da Radiologia e enxergando que ali existia uma profissão que poderia me dar um futuro melhor. Quanto mais eu aprendia, mais gostava da área e mais vontade tinha de me dedicar. Sem perceber, tinha encontrado a profissão que mudaria a minha vida.
Sem perceber, tinha encontrado a profissão que mudaria a minha vida. Paulo Simon
Você se lembra do seu primeiro contato profissional com a Radiologia?
Paulo Simon: Em 2019, enfrentei uma dificuldade que grande parte dos recém-formados conhece: conquistar a primeira oportunidade profissional. Foram muitos “nãos” pelo caminho, mas nunca perdi a esperança.
Depois de muita persistência, surgiu a chance de atuar como voluntário no Hospital das Clínicas. Hoje, olhando para trás, percebo que aquele voluntariado valeu muito mais do que apenas experiência profissional.
Foi ali que aprendi a rotina da Radiologia, conheci profissionais que contribuíram muito para a minha formação e entendi que, às vezes, o primeiro passo não é o emprego dos sonhos, mas é aquele que abre as portas para todas as oportunidades futuras.
Continuei trabalhando como estoquista e realizando outros trabalhos, conciliando essa rotina com a atuação voluntária como Técnico em Radiologia.
Nesse período, também iniciei a graduação em Tecnologia em Radiologia. Foi nessa fase que tive contato com Denilson, o Badogue, uma pessoa que teve papel importante na minha trajetória. Ele foi o primeiro profissional a me apresentar um equipamento de Tomografia Computadorizada.
Conheci o Denilson durante uma palestra que ele ministrou no curso técnico. Depois de formado, enviei uma mensagem dizendo que tinha interesse em conhecer a rotina da Tomografia. Sem hesitar, ele se disponibilizou para que eu pudesse acompanhá-lo durante um plantão.
Aquela experiência fez toda a diferença. Ver de perto a rotina da Tomografia despertou ainda mais minha motivação e me deu a certeza de que era nessa área que eu queria construir minha carreira.
Após aproximadamente um ano nessa jornada, surgiu minha primeira oportunidade profissional em um hospital de campanha, em Lauro de Freitas, atuando inicialmente no setor de Raios X. Algum tempo depois, fui transferido para uma unidade que possuía Tomografia.
Cheguei com uma boa base teórica, mas foi com o apoio dos colegas e a vivência prática do dia a dia que consegui desenvolver minhas habilidades, ganhar experiência e evoluir profissionalmente.
A atuação voluntária no Hospital das Clínicas foi decisiva para o início da carreira.
A experiência de Paulo mostra como voluntariado, acompanhamento profissional e abertura para aprender podem ajudar a construir a base necessária para futuras oportunidades.
Em quais áreas da Radiologia você já trabalhou?
Paulo Simon: Tive a oportunidade de atuar com Radiografia, tanto no convencional quanto com equipamentos digitais, além de experiência com Arco Cirúrgico e Tomografia Computadorizada.
Cada uma dessas áreas contribuiu de uma forma diferente para a minha formação e ajudou a construir o profissional que sou hoje.
Existe algum paciente ou situação que marcou profundamente sua trajetória?
Paulo Simon: Existem algumas situações que me marcaram, mas uma em especial foi o primeiro paciente oncológico que atendi.
Era um paciente em uma situação bastante avançada, com metástases. Quando ele entrou na sala, perguntei como estava, e ele respondeu que estava triste porque iria morrer.
Naquele momento, sem entender completamente a situação, perguntei o motivo de ele estar falando aquilo. Foi quando respondeu que era por causa do câncer. Confesso que, naquele instante, fiquei sem reação.
Durante a realização da radiografia de tórax, era possível observar as alterações causadas pela doença, e aquela situação me marcou profundamente.
Aquele momento mostrou que nosso papel vai muito além de realizar um exame. Lidamos com pessoas, histórias e sentimentos. Muitas vezes, um acolhimento, uma conversa ou simplesmente ouvir o paciente pode fazer grande diferença.
Depois daquele dia, nunca mais entrei em uma sala olhando apenas para o exame. Passei a enxergar primeiro a pessoa que estava ali.
Técnica, posicionamento e qualidade de imagem são fundamentais, mas não substituem escuta, respeito e acolhimento.
Da Radiologia para a Medicina Veterinária
Como nasceu a vontade de cursar Medicina Veterinária?
Paulo Simon: Na verdade, essa vontade sempre existiu, mas por muito tempo eu não enxergava um caminho para realizar esse sonho, principalmente por causa do custo da graduação.
Então, decidi traçar um plano dentro da Radiologia. Criei metas profissionais e pessoais que queria alcançar antes de dar esse próximo passo.
Sou muito grato por ter conseguido alcançar essas metas através da Radiologia, porque foi essa profissão que me proporcionou conhecimento, crescimento e também as condições para buscar a Medicina Veterinária.
Hoje vejo que não foi uma mudança de caminho, mas uma continuação da minha trajetória.
Houve algum acontecimento específico que despertou esse desejo?
Paulo Simon: Não teve exatamente um único acontecimento. Foi uma junção de fatores. A admiração que eu tinha desde criança pelos animais sempre esteve presente.
Além disso, a possibilidade de construir algo meu, ter um serviço próprio e saber que, com as minhas próprias mãos, eu poderia criar, desenvolver e colher os frutos de um trabalho feito por mim também me motivou bastante.
Como foi voltar à sala de aula?
Paulo Simon: Foi muito puxado. Muitas vezes eu ia para a aula depois de plantões de 24 ou até 36 horas.
Hoje, quando estou dando aula em cursos técnicos, às vezes pela manhã estou aplicando uma prova e, à noite, estou fazendo uma prova como aluno. São duas perspectivas completamente diferentes.
Eu praticamente emendei o Ensino Médio com o curso técnico, depois o técnico com o Tecnólogo, o Tecnólogo com a Medicina Veterinária e sei que ainda vou continuar essa caminhada com especializações.
Por mais que a gente ensine, nunca pode deixar de aprender.
A formação em Radiologia fez diferença na graduação em Veterinária?
Paulo Simon: Fez bastante diferença. Principalmente a base de anatomia, que facilitou muito minha adaptação e encurtou alguns caminhos durante a graduação.
Muitos termos médicos utilizados na Medicina Humana também são aplicados na Veterinária, então eu já tinha familiaridade com essa linguagem.
Atualmente, encaro a Medicina Veterinária com bastante realismo. Não vejo a profissão de forma romantizada. Sei das dificuldades, dos desafios e da luta que fazem parte da caminhada.
Você já imaginava que existiria tanta conexão entre as duas áreas?
Paulo Simon: Sim. Inclusive, eu brincava já no primeiro semestre que sabia qual seria minha futura área de especialização.
Com o passar do curso, fui percebendo ainda mais essa conexão. O Raio X e a Tomografia acabaram sendo uma continuidade natural de conhecimentos que eu já tinha desenvolvido na Radiologia Humana.
Projeto de extensão do curso de Medicina Veterinária.
Radiologia Veterinária
Você pretende unir as duas formações?
Paulo Simon: Sim, essa é uma das minhas principais pretensões. Tenho o objetivo de ter um serviço próprio de diagnóstico por imagem, onde eu possa unir as duas áreas da minha formação: desde a parte técnica, que vem da Radiologia, até a parte médica, que estou construindo na Medicina Veterinária.
Acredito que essa união me permite ter uma visão mais completa do processo e oferecer um atendimento com mais qualidade.
O olhar técnico muda a forma como você enxerga uma imagem veterinária?
Paulo Simon: Com certeza. Além da parte médica que venho aprendendo na Medicina Veterinária, o olhar técnico da Radiologia faz muita diferença.
A experiência de estar dentro da realização do exame ajuda a entender que existem muitos fatores envolvidos, como posicionamento, técnica utilizada, protocolos e possíveis artefatos.
Muitas vezes, quando você não vive essa etapa da aquisição da imagem, pode acabar interpretando algo como uma alteração ou patologia, quando na verdade pode ser uma questão técnica do exame.
Posicionamento
Interfere na anatomia demonstrada, sobreposições e qualidade diagnóstica.
Técnica
Parâmetros inadequados podem comprometer contraste, definição e interpretação.
Protocolos
Precisam considerar região, espécie, porte do animal e suspeita clínica.
Artefatos
Podem simular alterações e precisam ser reconhecidos antes da interpretação.
A Radiologia Veterinária ainda tem espaço para crescer no Brasil?
Paulo Simon: Com certeza. Na última década, a Radiologia Veterinária teve uma expansão muito grande.
Hoje, quase todas as especialidades da Medicina Veterinária voltadas à clínica, em algum momento, dependem de exames de imagem para auxiliar no diagnóstico e direcionar as condutas.
Com o avanço da tecnologia e a chegada de equipamentos antes mais restritos à Medicina Humana, a tendência é que esses recursos se tornem mais acessíveis na Veterinária.
Cada vez mais clínicas e hospitais veterinários estão investindo em diagnóstico por imagem. Isso amplia as possibilidades para quem quer atuar na área e para quem sonha em empreender.
A Tomografia Veterinária representa um dos principais encontros entre suas duas formações.
Carreira, mudanças e sonhos
Você já pensou que poderia ser tarde demais para recomeçar?
Paulo Simon: Recomeçar é um passo ousado e exige muita maturidade. Mas acredito que o principal é olhar o cenário, preparar-se para o mercado de amanhã e entender para onde as perspectivas estão caminhando.
Quando você olha para quatro ou cinco anos pela frente, pensa: “vai dar muito trabalho”. Mas esses anos vão passar de qualquer forma.
A diferença é que, em uma escolha, você pode olhar para trás e ver que mudou sua rota e construiu algo novo. Na outra, pode ficar apenas com o arrependimento de não ter tentado.
Qual foi o maior desafio para conciliar tudo?
Paulo Simon: Foi uma fase muito intensa. Houve semanas de prova em que eu percebia que não tinha absorvido o conteúdo porque chegava às aulas depois de noites perdidas de sono trabalhando.
Já aconteceu de virar noites estudando, precisar ler o mesmo material várias vezes porque a mente estava cansada e estudar durante os plantões, aproveitando os intervalos para fazer trabalhos da faculdade.
Foram muitos desafios, mas também foi extremamente gratificante conseguir superar cada um deles.
Houve algum momento em que você pensou em desistir?
Paulo Simon: Não. Desde o início, meu propósito sempre foi maior do que qualquer dificuldade que aparecesse pelo caminho. Entrei nessa jornada decidido a ir até o fim.
O que a Radiologia proporcionou além de uma profissão?
Paulo Simon: A Radiologia me ensinou ética, responsabilidade, relacionamento interpessoal e, principalmente, a consciência do impacto que temos nas nossas mãos.
Todos os dias realizamos exames que podem mudar completamente a conduta médica e, em muitos casos, influenciar diretamente o tratamento e a recuperação de um paciente.
Isso trouxe um senso de responsabilidade e propósito muito grande para a minha vida.
Você pretende deixar a Radiologia quando se formar em Veterinária?
Paulo Simon: A intenção é continuar, sim. Se eu tiver a oportunidade, minha meta é manter um vínculo com a Radiologia e, nas demais horas, dedicar-me à Medicina Veterinária.
Acredito que as duas áreas fazem parte da minha história e que podem caminhar juntas no futuro.
O que você diria ao Paulo que estava começando?
Paulo Simon: Primeiro, eu daria um abraço de conforto. Diria para ele dormir tranquilo, porque foram muitas noites de ansiedade e insegurança.
Falaria que ele iria superar os maiores medos, vencer as próprias limitações e alcançar muitos dos objetivos que pareciam distantes.
Diria também para continuar fazendo exatamente o que estava fazendo, porque cada esforço, cada dificuldade e cada escolha fizeram parte da construção da pessoa e do profissional que ele iria se tornar.
E, principalmente, diria para confiar no processo. No fim das contas, até os momentos que pareciam derrotas estavam preparando o caminho para tudo o que estou vivendo hoje.
Até os momentos que pareciam derrotas estavam preparando o caminho. Paulo Simon
Que mensagem você deixaria para quem tem medo de começar um novo caminho?
Paulo Simon: Se joga. Estude, analise o cenário, converse com pessoas que já passaram por esse caminho, organize-se financeiramente e confie no seu instinto.
O medo sempre vai existir, mas ele não pode ser o responsável por decidir o seu futuro.
A coragem não aparece depois que o medo vai embora. Ela aparece quando você decide seguir em frente apesar dele.
Se você tem um sonho, não espere o medo desaparecer para começar. Prepare-se, dê o primeiro passo e permita-se viver a jornada.
Tenho a sensação de que minha história ainda está na metade, e espero que os próximos capítulos sejam tão desafiadores e gratificantes quanto os que vivi até aqui.
Uma nova formação não precisa apagar tudo o que veio antes. A experiência acumulada pode se transformar justamente no diferencial de um novo caminho.
Paulo também compartilha sua experiência em aulas, eventos e palestras.
Além da Radiologia
Esta é a primeira entrevista de uma série criada para apresentar as pessoas, trajetórias, escolhas e sonhos que existem por trás da profissão.
Conhece um profissional com uma história que merece ser contada? Acompanhe as próximas entrevistas do Portal da Radiologia.
Entrevistado: Paulo Simon.
Produção editorial: Portal da Radiologia.
Texto organizado a partir das respostas enviadas pelo entrevistado.


