A Precarização Invisível: Como Cooperativas Estão Reduzindo a Dignidade Salarial do Técnico em Radiologia

A Precarização Invisível: Como Cooperativas Estão Reduzindo a Dignidade Salarial do Técnico em Radiologia

Uma análise crítica sobre o uso de cooperativas como ferramenta para pagar abaixo do piso e retirar direitos fundamentais dos profissionais.

A Radiologia no Brasil vive um dos momentos mais delicados da sua história recente. Apesar do avanço tecnológico e da crescente demanda por exames, o técnico em radiologia — peça essencial para o funcionamento dos serviços — tem sido empurrado para modelos de contratação que silenciosamente reduzem salários, retiram direitos e fragilizam toda a categoria.

Quando a “cooperativa” vira disfarce para reduzir custos

As cooperativas foram criadas para fortalecer trabalhadores e promover melhores condições. Porém, em muitos hospitais e clínicas, a realidade é oposta: cooperativas sendo usadas como fachada para contratação sem vínculo trabalhista, sem piso salarial e sem qualquer garantia básica.

Os técnicos contratados via cooperativa enfrentam:

  • Remuneração abaixo do piso da categoria;
  • Ausência completa de direitos: férias, 13º, FGTS, insalubridade;
  • Escalas extensas e mal remuneradas;
  • Substituição imediata, sem aviso;
  • Zero proteção jurídica em caso de demissão.

A lógica da “economia” que destrói o profissional

Reduzir custos às custas do trabalhador pode parecer “eficiente” para algumas instituições. Mas radiologia não é setor de baixa responsabilidade: envolve radiação, contrastes, riscos biológicos e exames de alta complexidade.

O resultado dessa economia artificial é:

  • Desmotivação da equipe;
  • Rotatividade elevada;
  • Queda na qualidade da imagem;
  • Riscos ao paciente;
  • Desvalorização progressiva da profissão.

O mito da “autonomia” do cooperado

O discurso mais usado para justificar a contratação via cooperativa é a tal “autonomia do profissional”. Porém, nos serviços de saúde, o que vemos é:

  • Horário imposto;
  • Chefia direta;
  • Escala fixa;
  • Valor da hora definido pelo empregador;
  • Obrigação de cumprir protocolos e metas como um CLT — mas sem direitos.

Isso não é cooperativismo. Isso é subordinação sem vínculo trabalhista, prática que já é foco de diversas fiscalizações do Ministério Público do Trabalho.

A normalização do absurdo

O mais preocupante é que muitos recém-formados aceitam esse modelo por necessidade. E quanto mais aceitam, mais ele se espalha. Assim, o piso salarial deixa de ser referência e passa a ser visto como “luxo”.

Mas não é. Nunca foi. E não deve ser.

O que precisa mudar

  • Profissionais valorizando o próprio trabalho e recusando valores muito abaixo do piso;
  • Hospitais assumindo responsabilidade contratual real quando há carga horária e subordinação;
  • Conselhos e sindicatos fiscalizando de forma ativa as práticas abusivas;
  • Educação trabalhista para que o técnico conheça seus direitos;
  • Unidade da categoria ao denunciar práticas que precarizam a profissão.

Conclusão

A Radiologia só cresce quando o profissional é valorizado. Não existe qualidade no serviço sem qualidade na contratação. E não existe cuidado ao paciente quando o técnico está desamparado.

A precarização não pode ser considerada normal. Deve ser discutida, combatida e extinta.Publicado por Portal da Radiologia

Técnico em Radiologia com experiência em diferentes áreas da radiologia diagnóstica. Apaixonado por tecnologia e imagem médica, busco compartilhar conhecimento e novidades do setor através do Portal da Radiologia, contribuindo para a valorização da profissão e para a atualização de estudantes e profissionais da área.

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