Como os Biomédicos Estão se Inserindo na Radiologia
A presença crescente dos biomédicos na radiologia brasileira representa uma transformação relevante no setor de diagnóstico por imagem. O que antes era um campo dominado por técnicos e tecnólogos em radiologia passou a incluir, de forma crescente, profissionais da biomedicina habilitados para atuar em imagem — gerando avanços, mas também conflitos e dúvidas sobre limites de atuação.
Origem e contexto
Historicamente, o biomédico atuava majoritariamente em análises clínicas, pesquisa e biotecnologia. Com a evolução das habilitações reconhecidas pelo Conselho Federal de Biomedicina (CFBM) e a oferta de cursos de especialização, a biomedicina ganhou um caminho formal para ingressar em áreas como tomografia, ressonância, medicina nuclear e radiologia intervencionista.
A fronteira das competências
O cerne da questão não é a presença do biomédico na radiologia, mas a definição clara das competências de cada categoria profissional. Técnicos e tecnólogos possuem formação técnica profunda em física das radiações, operação de equipamentos e protocolos práticos. Já o biomédico tem formação sólida em ciências biológicas e laboratoriais, mas sua entrada na radiologia depende de habilitações complementares — cuja qualidade e carga prática variam significativamente.
Consequências da formação desigual
A variação na qualidade dos cursos e habilitações pode gerar profissionais com lacunas práticas, exigindo tempo de aprendizado em serviço e, em casos extremos, aumentando o risco de erros técnicos. Técnicos e tecnólogos apontam que algumas contratações são realizadas com base em certificados pouco robustos, enquanto gestões hospitalares buscam rapidez e economia na contratação.
A visão da gestão institucional
Para gestores, a contratação de biomédicos muitas vezes representa vantagem: versatilidade para atuar em diferentes setores, capacidade de integrar rotinas laboratoriais e de imagem, e potencial para pesquisas e projetos. Porém, essa visão administrativa pode conflitar com a necessidade de garantir experiência prática e segurança técnica no manejo de equipamentos complexos.
Multidisciplinaridade ou competição?
O ideal da multiprofissionalidade — técnicos, tecnólogos, biomédicos, radiologistas e físicos atuando em equipe — convive, na prática, com disputas por funções, sobreposição de tarefas e tensão salarial. Enquanto alguns veem a chegada dos biomédicos como enriquecimento do quadro técnico, outros percebem risco de perda de espaço e desvalorização profissional.
O papel do paciente e da qualidade
É crucial lembrar que o foco deve permanecer no paciente. Títulos e siglas são relevantes, mas o que importa no atendimento é a competência técnica, a segurança no procedimento e a qualidade das imagens e laudos. Quando essas condições são atendidas, a profissão do executor torna-se secundária diante da excelência do serviço prestado.
Lacunas regulatórias: um problema estrutural
A atual lacuna entre legislações e resoluções específicas cria um “vácuo regulatório” que permite interpretações distintas em diferentes instituições e estados. Não há sempre clareza sobre quem pode operar tal equipamento ou assumir determinada responsabilidade técnica — e isso favorece práticas inconsistentes entre serviços.
Consequências práticas
- Variação de critérios de contratação entre clínicas e hospitais;
- Diferenças na carga horária e no conteúdo dos cursos de habilitação;
- Risco de conflitos internos e de insegurança técnica;
- Precarização de funções quando a decisão é puramente econômica.
Caminhos possíveis para solução
A solução passa por ações conjuntas: padronização de cursos e habilitações, definição legal clara de atribuições, investimentos em educação continuada e atitudes colaborativas entre categorias. Regulamentação e formação precisam caminhar juntas para reduzir desigualdades e evitar que o mercado prefira apenas o menor custo.
Medidas práticas recomendadas
- Elaboração de normas nacionais que delimitem competências e responsabilidades;
- Criação de parâmetros mínimos de carga horária prática para habilitações em imagem;
- Programas de integração e treinamento interprofissional nas instituições;
- Valorização de certificações reconhecidas e de programas de residência técnica;
- Políticas de contratação que priorizem competência comprovada e não apenas custo.
Um apelo à colaboração profissional
A radiologia só ganha com diálogo maduro entre profissionais. Técnicos e tecnólogos devem continuar aprimorando suas competências; biomédicos devem buscar formação sólida e prática; gestores devem tomar decisões pautadas na segurança e na qualidade; e conselhos profissionais precisam trabalhar por regulamentações claras.
Conclusão
A inserção dos biomédicos na radiologia é um fato. O desafio é transformá-lo em uma oportunidade de crescimento coletivo, com normas, educação e práticas que garantam segurança e qualidade ao paciente. A radiologia do futuro será multidisciplinar — desde que cada profissional atue com preparo, transparência e responsabilidade.
Referências e leitura complementar: veja nosso material sobre protocolos e acesso venoso para procedimentos de tomografia. (Arquivo técnico: Acesso Venoso e Fluxo de Contraste — PDF)
Publicado por Portal da Radiologia



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