Uma auditoria operacional do Tribunal de Contas da União (TCU) sobre o programa Agora Tem Especialistas apontou que a disponibilidade de recursos físicos ainda é insuficiente para sustentar plenamente sua implementação. No diagnóstico sobre infraestrutura, o Tribunal incorporou dados do Atlas da Radiologia no Brasil 2025 e destacou desigualdades relevantes no acesso a exames de diagnóstico por imagem entre usuários do SUS e beneficiários da saúde suplementar.
O TCU avaliou os componentes ambulatorial e cirúrgico do Agora Tem Especialistas e identificou limitações de infraestrutura. Na Radiologia, o documento registra 1,69 equipamento de ressonância magnética e 3,38 tomógrafos por 100 mil habitantes e aponta que o acesso à ressonância magnética entre beneficiários de planos de saúde é 13,13 vezes maior do que entre usuários do SUS. O Tribunal também verificou que, de 3.303 iniciativas do Novo PAC Saúde consideradas no levantamento, 1.435 estavam concluídas, o equivalente a 43%.
O que o TCU encontrou
A avaliação consta do Acórdão 1622/2026-TCU-Plenário, relacionado ao processo TC 015.703/2025-8 e apreciado em 24 de junho de 2026. O trabalho analisou a implementação dos componentes ambulatorial e cirúrgico do programa Agora Tem Especialistas, do Ministério da Saúde, abrangendo a gestão de 2023 a 2025.
Entre os pontos examinados estava a capacidade física disponível para ampliar o atendimento especializado. A conclusão do Tribunal foi de que a disponibilidade de recursos físicos é insuficiente para a implementação do programa. Esse diagnóstico ganha importância particular para a Radiologia porque parte relevante da assistência especializada depende de equipamentos, instalações adequadas, equipes habilitadas e capacidade operacional para realização dos exames.
Tomografia e ressonância entram no centro do problema
Ao tratar da infraestrutura de diagnóstico, o documento do TCU cita o Atlas da Radiologia no Brasil 2025, publicação do Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem (CBR). Segundo os dados reproduzidos na auditoria, o país apresenta 1,69 equipamento de ressonância magnética e 3,38 tomógrafos por 100 mil habitantes.
Mais do que a quantidade nacional agregada, porém, a avaliação chama atenção para a distribuição e para as diferenças de acesso entre os sistemas público e suplementar. O dado mais expressivo destacado no documento indica que o acesso à ressonância magnética é 13,13 vezes maior entre beneficiários de planos de saúde do que entre usuários do SUS.
O indicador de 13,13 vezes se refere à diferença de acesso ou produção de exames entre os grupos comparados. Ele não significa, isoladamente, que a saúde suplementar possua 13,13 vezes mais aparelhos de ressonância magnética. Quantidade de equipamentos e acesso efetivo aos exames são dimensões relacionadas, mas distintas.
Por que capacidade instalada importa para o programa
O Agora Tem Especialistas busca ampliar o acesso da população a consultas, exames e procedimentos especializados. Nesse contexto, financiamento e contratação de serviços são componentes importantes, mas não eliminam automaticamente limitações físicas existentes na rede.
Para exames como tomografia computadorizada e ressonância magnética, a capacidade de atendimento depende de uma cadeia que envolve disponibilidade e distribuição dos equipamentos, estrutura compatível para instalação e funcionamento, manutenção, insumos, organização dos serviços e profissionais qualificados. Assim, ampliar a demanda financiada sem expansão correspondente da capacidade pode manter gargalos em determinados territórios ou serviços.
A conclusão do TCU deve ser interpretada como um diagnóstico sobre as condições verificadas pela auditoria, e não como afirmação de que o programa necessariamente fracassará. O próprio cenário é dinâmico, com medidas governamentais destinadas à ampliação da oferta e da infraestrutura.
Novo PAC Saúde ainda tinha iniciativas em execução
A auditoria também analisou iniciativas relacionadas ao Novo PAC Saúde. No recorte utilizado pelo Tribunal, havia 3.303 iniciativas consideradas, das quais 1.435 estavam concluídas, correspondendo a 43% do total.
Esse dado ajuda a contextualizar a avaliação: parte da infraestrutura prevista para reforçar a capacidade assistencial ainda estava em processo de implantação no momento considerado. Portanto, o diagnóstico do TCU retrata uma estrutura em expansão, mas que, segundo a Corte de Contas, ainda não apresentava disponibilidade suficiente para a implementação pretendida.
Governo também amplia oferta de exames
Paralelamente às limitações identificadas pela auditoria, o Ministério da Saúde vem anunciando medidas para ampliar a capacidade diagnóstica. Entre as ações divulgadas em 2026 está a incorporação de novos tomógrafos e a utilização da rede privada e filantrópica para ampliar a realização de exames pelo SUS.
Em julho de 2026, o Ministério atualizou valores da modalidade de Crédito Financeiro do Agora Tem Especialistas para procedimentos que incluem tomografias e ressonâncias magnéticas realizados pela rede privada e filantrópica para pacientes do SUS. A medida representa uma das estratégias utilizadas para aumentar a oferta enquanto a capacidade pública é ampliada.
A avaliação do TCU não ocorre em um cenário de ausência de investimentos. O contraste está justamente entre uma política que busca ampliar o acesso e uma infraestrutura que, no recorte auditado, ainda foi considerada insuficiente. Para a Radiologia, isso coloca a capacidade instalada e a distribuição dos serviços no centro da discussão sobre redução das filas.
O que isso significa para a Radiologia
A auditoria reforça que diagnóstico por imagem não é apenas uma etapa acessória da assistência especializada. Tomografia, ressonância magnética e outras modalidades são parte da estrutura necessária para investigação diagnóstica, planejamento terapêutico, acompanhamento e definição de condutas em diferentes especialidades.
Para Técnicos e Tecnólogos em Radiologia, a expansão real da capacidade pode significar mudanças na demanda dos serviços, implantação ou ampliação de unidades e necessidade de organização de equipes compatíveis com o crescimento da oferta. Entretanto, o documento não permite concluir, por si só, quantos novos postos de trabalho serão criados ou em quais localidades isso ocorrerá.
O problema apontado também não pode ser reduzido à compra de equipamentos. Um tomógrafo ou equipamento de ressonância precisa estar inserido em uma estrutura operacional capaz de produzir exames de forma contínua, segura e acessível à população. Por isso, distribuição territorial, recursos humanos e funcionamento efetivo são tão relevantes quanto a existência física dos aparelhos.
O que acompanhar daqui para frente
Os próximos resultados do Agora Tem Especialistas deverão mostrar em que medida as iniciativas de expansão da rede pública, a contratação complementar de serviços e os investimentos do Novo PAC Saúde conseguem reduzir os gargalos identificados pelo TCU.
Para a Radiologia, um ponto especialmente relevante será observar se o aumento da oferta de tomografias, ressonâncias e outros exames alcançará regiões com menor capacidade instalada e se a expansão física será acompanhada das condições profissionais e operacionais necessárias para transformar equipamentos e contratos em atendimento efetivo.
Tribunal de Contas da União (TCU), Acórdão 1622/2026-TCU-Plenário e divulgação oficial sobre a auditoria do programa Agora Tem Especialistas; Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem (CBR), Atlas da Radiologia no Brasil 2025; Ministério da Saúde, informações oficiais sobre expansão de equipamentos e atualização da oferta de tomografias e ressonâncias pelo SUS.
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