Os primeiros exames diagnósticos de raios X realizados durante um voo orbital demonstraram que a radiografia portátil pode produzir imagens clinicamente úteis em microgravidade. O marco ocorreu na missão comercial Fram2, lançada em março de 2025, e os resultados foram publicados em 14 de julho de 2026 na revista científica Radiology, da Radiological Society of North America (RSNA).
Resumo da notícia
- Tripulantes sem formação médica realizaram radiografias após quatro horas de treinamento.
- Foram obtidas imagens de mão, antebraço, tórax, abdome e pelve, além de objetos e equipamentos.
- Radiologistas independentes classificaram todas as imagens feitas em órbita como adequadas para diagnóstico.
- A tecnologia poderá ampliar o atendimento médico em missões longas e também apoiar inspeções de equipamentos espaciais.
Radiografia portátil é testada em órbita
Durante mais de quatro décadas, a ultrassonografia foi a principal modalidade de imagem médica utilizada em voos espaciais. Embora seja versátil e não empregue radiação ionizante, o método depende da habilidade do operador e pode apresentar limitações para determinadas estruturas e condições clínicas.
O projeto SpaceXray buscou avaliar se um sistema comercial, portátil e disponível no mercado poderia superar os desafios impostos pela microgravidade. Entre eles estão o posicionamento do paciente e do detector, o movimento constante dentro da nave, as restrições de espaço e a ausência de técnicos em radiologia ou radiologistas a bordo.
O estudo prospectivo utilizou um gerador digital de raios X ultracompacto, sem fio e alimentado por bateria. Antes do voo, três tripulantes receberam apenas quatro horas de treinamento para operar o sistema e seguir os protocolos de aquisição.
Como os exames foram realizados
A missão Fram2 foi lançada em 31 de março de 2025 por um foguete Falcon 9, da SpaceX. A cápsula entrou em uma órbita polar de aproximadamente 425 a 450 quilômetros de altitude e permaneceu no espaço por três dias e 14 horas, retornando à Terra em 4 de abril de 2025.
Antes da decolagem, os pesquisadores produziram radiografias de referência da mão, do antebraço, do tórax, do abdome e da pelve. Durante o voo, a tripulação repetiu esses exames sem suporte operacional em tempo real a partir do solo. Também foram radiografados um objeto fantoma usado para calibração e um relógio inteligente.
As imagens eram transmitidas imediatamente para um computador dentro da nave e revisadas pelos próprios tripulantes. Após o retorno, novas radiografias foram realizadas para permitir a comparação entre as condições pré-voo, em órbita e pós-voo.
Imagens atingiram qualidade diagnóstica
Três radiologistas independentes avaliaram as radiografias considerando qualidade geral, resolução espacial, resolução de contraste e posicionamento. Segundo a RSNA, não foram identificadas diferenças relevantes na qualidade geral, no contraste ou na resolução espacial entre as imagens produzidas antes do lançamento e aquelas obtidas em microgravidade.
Todas as radiografias feitas durante o voo atingiram nível considerado diagnóstico. As imagens do tórax, abdome e pelve receberam notas inferiores no quesito posicionamento, o que evidencia uma dificuldade prática da microgravidade, mas essa limitação não impediu sua utilização diagnóstica.
A exposição estimada à radiação para os tripulantes não ultrapassou a associada a exames clínicos convencionais realizados na Terra. O equipamento sofreu danos superficiais durante o pouso e a recuperação da cápsula, mas seus componentes internos e a emissão de raios X permaneceram preservados.
O que muda para futuras missões espaciais
A disponibilidade de radiografia a bordo pode ampliar a capacidade de avaliação de fraturas, entorses, alterações pulmonares, doenças abdominais e perda de massa óssea. Em missões prolongadas, especialmente em direção à Lua ou a Marte, o retorno imediato à Terra pode ser inviável, tornando o diagnóstico autônomo um componente essencial da assistência médica.
A pesquisadora principal Sheyna Gifford, médica e professora assistente de medicina aeroespacial da Mayo Clinic, destacou que o estudo demonstra a viabilidade da radiografia em órbita e amplia as possibilidades de diagnóstico para a saúde da tripulação. O resultado também mostra que protocolos simplificados podem permitir a operação do equipamento por pessoas sem treinamento médico avançado.
Os pesquisadores ressaltam, porém, que novos estudos serão necessários para definir indicações clínicas, padrões de interpretação, protocolos de segurança e parâmetros de comparação para diferentes tipos de missão.
Uso também pode incluir equipamentos e áreas remotas
A aplicação da tecnologia não se limita ao corpo humano. Os raios X podem ser usados para examinar componentes eletrônicos, trajes espaciais e outras estruturas sem desmontá-los, auxiliando na identificação de falhas e na manutenção durante missões.
Entre as possibilidades futuras estão sistemas instalados em veículos lunares, inspeção de satélites em órbita e equipamentos menores e mais resistentes para exploração espacial. O desenvolvimento de dispositivos autônomos também pode beneficiar regiões remotas da Terra, cenários de emergência, áreas com poucos recursos e locais sem acesso imediato a serviços convencionais de diagnóstico por imagem.
Limitação importante: o estudo comprovou a viabilidade técnica e a qualidade diagnóstica das imagens, mas ainda não estabeleceu protocolos completos para utilização clínica rotineira em missões espaciais de longa duração.
Fontes
RSNA News — First Diagnostic X-Rays in Space Mark New Era for Astronaut Health
Radiology — SpaceXray: Feasibility and Diagnostic Capabilities of On-Orbit Medical Radiography
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